terça-feira, 3 de setembro de 2013

Os Marcianos chegaram a Portugal, em 1958


Como nasceu "A invasão dos marcianos"
de Matos Maia para Clássicos da Rádio

O meu gosto pelo policiário e pela ficção cientifica (acho mais apropriado rotular de antecipação, uma vez que o homem já pisou a Lua e, não tarda, estará em Marte) vem desde muito novo.


Em meados da década de 50 li num magazine policiário (titulado "Gato preto" e dirigido pelo arquitecto Victor Palia que, antes havia dirigido o "Vampiro Magazine" que se finou) um artigo sobre a "Guerra dos mundos", de Herbert Wells e algumas linhas do guião escrito por Howard Koch, o argumentista do filme "Casablanca".
Achei curioso tentar fazer uma emissão similiar em Portugal, em locais conhecidos, com nomes portugueses.
Reli "A guerra dos mundos" e elaborei uma sinopse do que seria do programa.

A Direcção da R.R. (Rádio Renascença) na altura achou curioso, mas endossou o assunto para a censura interna. Esta também não viu inconveniente mas, pelo sim, pelo não, consultou o delegado do Governo.
Aqui uma informação que talvez nem todos saibam: no anterior regime, além da censura para a imprensa feita pelos "reumáticos majores reformados" na Calçada da Glória, era Lisboa, havia um censor para cada estação de Rádio e também para a RTP, bem como para cinema e para teatro.

O delegado também não encontrou razão para proibir e deu "luz verde" ao projecto.
(Curiosamente ninguém dos três"crivos" por onde a sinopse passou deu conta de que, entre várias entidades fictícias, me passou a sigla GNR...Nem nenhum interveniente durante as gravações deu pelo "lapso" que me poderia ter acarretado mais dissabores do que acarretou...).
Depois deste Amén generalizado puz-me ao trabalho de adaptar, actualizar, inventar, etc" sobre a obra "A guerra dos mundos".
Passo seguinte: falar com colegas da R.R. para entrarem no projecto" O papel de repórter da R.R. estava destinado ao Henri-
que Mendes que, à última hora, me pediu para ser substituído dado que andava a fazer provas para entrar na RTP.
A escolha caiu sobre um colega e amigo dos Emissores Associados de Lisboa, Álvaro de Lemos.
Seguiu-se o trabalho de pedir a colegas e a amigos se tinham parentes ou colegas de trabalho que pudessem colaborar. Vozes fortes para comandantes de exército; voz pausada, mas firme para membros do Governo, etc.

Seguiu-se um trabalho de imaginação: inventar ruídos para determinadas situações. Eu e o Moreno Pinto andámos dias a dar
voltas à cabeça. Consegui que a delegação da "Paramount Filme" me desse colaboração. Uma tarde, eu e o Moreno Pinto "artilhado" com gravador, fomos visionar o único filme existente baseado no livro de Wells.
Praticamente nada aproveitámos, uma vez que as cenas com sons insólitos tinham "a companhia indesejável" de música.
Criámos os nossos próprios sons e um dos mais curiosos é o do ruído de multidão assustada e aos gritos. Esse som assim parece no contexto em que foi inserido. No entanto trata-se de uma gravação que fizemos num baile de fim-de-ano na Casa do Algarve que era vizinha dos estúdios da R.R.!!!
A cena do combate em Vila Nova de Gaia tinha que ser feita ao ar livre. Naquela época não havia câmaras de eco, revérberos e muito poucos discos de ruídos e de sons.
Uma noite, depois do fecho da emissora, fomos para Monsanto, junto ao emissor da R.R. carregando um gravador "portátil" com algumas dezenas de quilos. Ali podíamos gritar à vontade a palavra "Fogo", bem como as várias ordens em voz alta.
O meu trabalbo, meu como o do Moreno Pinto secundado pelo António Ricardo e o de todos os intervenientes, foi absolutamente gratuito. A R.R. não gastou um centavo com a emissão.

Desde que escrevi a sinopse até o programa ficar pronto para transmitir, o trabalho durou 11 meses e algumas semanas.
Durante a transmissão começaram a "chover" os telefonemas dos mais variados: angustiantes, curiosos, insultuosos, etc"
O primeiro foi da agência noticiosa "France Press" a saber o que se passava em Carcaveligs e onde ficava situada a "Quinta das Conchas" pois tinham enviado um repórter para o local"..
Por duas vezes sou chamado ao telefone porque um senhor super irritado, dizendo ser o comandante de piquete da PSP no Governo Civil, me ordenava que parasse a transmissão, caso contrário... me mandaria prender*
Não liguei importância ao caso porque, nessa altura, já eu e três colegas nos estúdios, estávamos a ficar nervosos com os telefonemas e antevendo o que poderia acontecer.
Cumprindo a sua palavra o comandante - que o era de facto - mandou um sub-chefe e três guardas devidamente armados prender-me aos estúdios. Aí a emissão foi interrompida e passaram a transmitir discos.
No Governo Civil compreendi a histeria do graduado: um PBX com 20 linhas estava totalmente bloqueado por pessoas a saber
o que se passava, porque tinham visto incêndios em-Carcavelos (?); qual era a guerra que havia em Vila Nova de Gaia (?), etc.
Assim, se tivesse havido qualquer problema grave na cidade a PSP do Governo Civil nada podia fazer por ignorar.
Para "saber que não se brinca com coisas sérias!" prendeu-me numa cela, durante cerca de 3 horas, como um vulgar meliante.
No dia seguinte todos os jornais tinham manchetes sobre o assunto, uns criticando, pouquíssimos aplaudindo. Recordo-me apenas de duas excepções: "Diário de Lisboa" e "Diário Ilustrado".
Nomeadamente um jornalista (?) do "Jornal de Notícias" foi asperamente crítico, chegando ao ponto de, dias depois, voltar
ao assunto lamentando que o 'responsável não tivesse sido severamente punido'. Esse articulista (?) lamentou que a R.R. tivesse feito a transmissão, porque o programa era patrocinado por uma empresa de máquinas de escrever !!! E foi bem mais longe pedindo ao Governo "uma censura mais apertada para a Rádio".

Aos poucos fui tendo conhecido do eco da emissão parcial em jornais espanhóis, franceses, ingleses e alemães.
O dossiê com todos os recortes foi, infelizmente, perdido por um amigo meu, e estou reduzido a umas poucas fotocópias de publicações portuguesas.
As chamadas telefónicas continuaram durante vários dias para a R.R., havendo ouvintes indignados que deixaram de ser sócios e muitos outros (alguns fazendo questão em frisar que nem eram catolicos!) a inscreverem-se na 'Liga dos Amigos da R.R."

Pouco mais de uma semana após a emissão fui levado à PIDE por um agente, para interrogatório. Subi e desci escadas, passei por páteos, estive em vários gabinetes, ora só ora acompanhado por agentes "mudos" e, do 32º andar onde me encontrava, acabei por descer para o átrio onde se situava o gabinete do "inspector" Ferreira da Costa.
Ele estava devida e pormenorizadamente documentado sobre o caso de Welles e o que tinha sucedido nas U.S.A.
O interrogatório prolongou-se por várias horas, uma vez que entrei no edifício pelas 9h30m e saí cerca das 16h00.
Tinha dois dias para entregar uma lista completa de todos os participantes na "parvoíce" (sic) com nomes, moradas, números de telefonemas, moradas de empregos, números dos B.I., idades, etc., etc.
Foi isso que fiz, temendo que algum elemento que não conhecia pudesse ter algum problema político. Felizmente nada houve a assinalar.



Foi no passeio, à porta do edifício, que o "inspector" com palmadinhas nas costas me disse, mais ou menos: "Por agora tudo bem. Mas não se meta nessas coisas. Um dia faz qualquer coisa sobre a Lua, volta para cá e, se calhar, não sai ".
Semanas mais tarde soube, de fonte fidedigna, que fora Oliveira Salazar quem telefonara para o comandante-geral da PSP para cortarem o programa e para me prenderem por umas horas e para o Director-geral da PIDE para "darem um puxão de orelhas ao rapazinho"...
Hoje continuo convicto de que não fosse o programa emitido pela "emissora católica portuguesa" eu teria estado metido num grave e incompreensível problema e, talvez, numa situação bastante embaraçosa.



Por: Matos Maia
em exclusivo para Clássicos da Rádio

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