segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

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Exemplo de uma 'chaminé' oceânica, que os cientistas consideram autênticos oásis de vida, dando origem a estranhos ecossistemas

UTILIZANDO o submersível francês «Nautile», cientistas portugueses e franceses exploraram no Verão de 1998 as profundidades marítimas ao largo dos Açores. Foi a primeira operação organizada por investigadores portugueses às zonas hidrotermais desses abismos oceânicos. Os organizadores deram-lhe o nome de Missão Saldanha, em homenagem ao conhecido professor português de biologia marinha que faleceu em 1997.

O «Nautile», que é um dos poucos submarinos capazes de mergulhar a tais profundidades, tem permitido aos investigadores submergir a vários locais situados entre os 800 e os 3000 metros abaixo do nível das águas do mar. O objectivo é estudar a geologia dos fundos marinhos, nomeadamente as chaminés vulcânicas submarinas, assim como a fauna que se desenvolve nesses ambientes estranhos.

A descoberta das primeiras fontes hidrotermais submarinas foi feita no oceano Pacífico, em 1977, a bordo do submersível norte-americano «Alvin». Só em 1993, depois de várias explorações infrutíferas, é que se encontraram fenómenos semelhantes no fundo do Atlântico. A descoberta deve-se a Luiz Saldanha e a outros especialistas norte-americanos e franceses que, mergulhando no «Alvin», descobriram um campo hidrotermal perto dos Açores. O campo então descoberto, a que chamaram Lucky Strike, é um dos mais activos que se conhecem.

Mergulhando mais a sudoeste, numa zona da crista médio-atlântica denominada Famous - já objecto de infrutíferos estudos anteriores -, descobriu-se depois um novo campo hidrotermal.

As fontes prolongam-se por uma área de uns 50 metros quadrados, no topo do recém-baptizado monte Saldanha. Não foi aí detectada fauna, mas observaram-se vários filamentos que se suspeita serem constituídos por bactérias.

Ao estudar mais em pormenor a formação geológica, os investigadores encontram indícios de se tratar de um campo hidrotermal na sua forma mais primitiva. O estudo continuado desta área é importante para levantar novas pistas, tanto sobre o processo de formação geológica como sobre o processo biológico em acção junto a essas fontes submarinas.

O fundo oceânico possui numerosas fissuras, através das quais as águas entram em contacto com rochas quentes, formadas recentemente a partir de magmas. As rochas de temperatura mais elevada localizam-se essencialmente ao longo dos «riftes» oceânicos, as cadeias montanhosas submarinas onde se geram continuamente as rochas do fundo do mar. A água desce através das fissuras e atinge temperaturas muito elevadas. Aquecida, sobe e arrasta consigo vários metais das rochas circundantes. Quando emerge no fundo do oceano, o fluido é rico em metais e deposita em torno da abertura um resíduo sólido, que forma uma autêntica chaminé. Essa chaminé fumega sem parar, a temperaturas que alcançam os 360 graus Celsius, e mantém-se activa durante dezenas de anos, por vezes talvez até uma centena, criando condições para o desenvolvimento de um estranho ecossistema. A biomassa aí encontrada é dez a 100 mil vezes superior à dos outros povoamentos existentes à mesma profundidade. É um autêntico oásis de vida. E de uma vida muito diferente da que se julgava possível.

Os organismos aí existentes baseiam-se numa cadeia alimentar que até há pouco não se imaginava. Ninguém pensava que uma flora que não depende da energia solar pudesse existir, nem que muitos dos estranhos animais aí encontrados habitassem o nosso planeta. A descoberta veio revolucionar o nosso conhecimento sobre a vida e mostrar que esta pode existir em ambientes muito diferentes dos encontrados à superfície da Terra ou nas camadas menos profundas dos oceanos.

Nessas zonas hidrotermais profundas descobriram-se quase 400 espécies até então desconhecidas. Na base da cadeia alimentar aparecem bactérias que obtêm a sua energia básica a partir da oxidação de sulfuretos, presentes nos fluidos que emergem das chaminés submarinas. Alimentando-se dessas bactérias, aparecem vermes e moluscos bivalves gigantescos, com 26 centímetros de comprimento. Estranhas espécies de caranguejos e de camarões e outros animais mais complexos surgem no fim da cadeia alimentar. Um facto curioso é que a maioria das espécies aí existentes apenas sobrevive nesses ambientes, o que levanta muitas questões ainda sem resposta. Como terá aparecido a vida nesses locais, à primeira vista tão inóspitos?

A descoberta destas estranhas espécies veio mostrar que a vida pode existir longe da energia solar e em ambientes muito diferentes daqueles que pensávamos ser condição necessária para a evolução biológica. Especula-se hoje, por exemplo, que possa ter sido nesses ambientes que a vida primitiva se originou no nosso planeta. Sendo assim, é bem possível que existam condições semelhantes noutros planetas, e é natural que em Marte ou em Europa, um dos satélites de Júpiter, possam existir formas de vida no subsolo ou em oceanos subterrâneos

www.instituto-camoes.pt

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